Suite Rio de Janeiro

Suite n.1 Rio de Janeiro

Orquestra dos Países Baixos
Direcção Walter Proost
Piano Eliane Rodrigues

Ouvido em Zwolle
2 de Novembro de 2008
Hubert Couteau

101,18 quilómetros quadrados; município na província de Overijssel; situado na margem este do IJssel, 119.000 neerlandeses; conhecido pelo "Zwolse Bol" (uma bomba calórica de cerca de 10 centímetros de diâmetro); com um teatro novinho em folha no seu centro, o "Theater De Spiegel".

No dia dos Fiéis Defuntos e com 19 "die hards", estávamos naquela tarde em Zwolle para um concerto dado pela Orquestra dos Países Baixos, dirigida por Walter Proost e com a colaboração de Eliane Rodrigues. E não nos esqueceremos assim tão depressa, pois naquela tarde, naquele teatro do espelho, não se "tocava" música, mas "produzia-se" música, o que é muito raro. A maior parte das orquestras que conhecemos está abarrotada de músicos com um talento técnico excepcional, que percorrem o repertório a toda a velocidade e que mandam o público encantado para casa após duas horas de barulho, com a satisfação de terem reconhecido a obra. Pois não foi o caso desta orquestra com este dirigente e com esta solista.

Não só a suite de Eliane era novo para nós, mas também redescobrimos o novo mundo. Agradecemos a todos, podemos continuar a nossa vida por mais uns tempos.

Eis o programa: a Suite para piano e orquestra "Rio de Janeiro" de Eliane Rodrigues. Uma criação para os Países Baixos, que estreou mundialmente em 9 de Agosto de 2000, em Saas-Fee (Suíça), e que, desde então, nunca mais foi executada. É o que acontece aqui nos Países Baixos às composições novas. Na altura, este opus 8 ainda se chamava "Concierto n.º 1", com o subtítulo "impressões sinfónicas para piano e orquestra". Actualmente é uma suite. Para mim, nem é uma coisa nem outra. Chamá-lo-ia um Tema. E o Tema é: Tristeza. Raramente senti tanta tristeza como nesta obra. Uma tristeza de que a compositora não consegue sair, que regressa vezes sem conta, dominando-a. E... de que quer sair, ela quer viver, ser alegre, encaixar a tristeza entre todas as outras emoções. Mas não o consegue. Procura então uma saída na música, suplicando ajuda aos músicos, pedindo compreensão. E enraivece-se ao embater na incompreensão. Mas eles também não conseguem consolá-la, conseguindo apenas oferecer alguns sons dilacerados. Folheava desesperado o programa e, na última parte da suite, encontrei uma samba. Provavelmente este trará uma solução, pensava eu. Estava enganado. A samba é introduzida cheia de energia e coragem, mas pára, fica presa, não avança. Eliane pede novamente socorro a todos os instrumentos. Em vão. Após os últimos tons desta composição, o ouvinte fica aturdido, arrebatado por emoções, sem palavras.

Mas esta suite é arte da grande. Toda a minha vida tenho-me perguntado por que não sou como todos os outros. Por que sou sempre empurrado para a arte. Mas o que é: a Arte? Para mim próprio, peguei nalgumas definições, polindo-as ou até copiando-as sem mais. Mas para mim são essenciais. A Arte é: A visualização do invisíviel - Tornar discutível o indiscutível. E neste sentido, esta suite faz parte da maior arte.

E porque Eliane, Jeannine, Ernest e eu somos daqueles amigos que se encontram apenas esporadicamente e que, por isso mesmo, continuam a ser amigos, quero desenterrar o meu historial de missionário. Antes do início do concerto, Eliane comunicou que escreveu o opus 8 em memória do seu irmão, que faleceu já há algum tempo e cuja morte ainda não conseguiu aceitar inteiramente. Bom, meus caros amigos, deixem-me dizer-vos o seguinte. É a minha filosofia, talvez vos seja útil. A morte é um dia da vida de uma pessoa, o segundo dia mais importante. O nascimento é o primeiro. Todos os outros dias compõem a Vida. Portanto, não se honra uma pessoa pensando toda a vida no nascimento e na morte, mas sim pensando em todos aqueles outros dias. Uma pessoa não morre, mas subsiste na memória. E essa nunca pode desaparecer, deve ser acarinhada. Os dias da Vida e não aquele dia da Morte. Até aí a minha homilia por ocasião de Fiéis Defuntos.

Queremos ainda abordar o estilo desta obra, a forma já foi discutida. A obra surpreende pela sua contemporaneidade, é moderna, atonal, repleta de dissonantes, de instrumentos roçadores e de timbres, é social: cada instrumento recebe o seu momento e o piano não é nada mais do que um instrumento no todo, transformando a obra, com razão, de um concerto numa suite para piano e orquestra ou para orquestra com piano.

Em termos de estrutura, aproxima-se mais do dodecafonismo. O piano representa uma série de notas. Quanto a mim, não é nenhum tema ou leitmotiv, é a realização de um timbre, dando um significado importantíssimo aos silêncios, como, aliás, é o caso em toda a obra. Eliane ousa tocar o silêncio. Li que alguém comparou esta obra a "Le boeuf sur le Toit", essa pessoa também pensou em Berio, Stockhausen, Pierre Boulez, Chick Corea, Mozart, Richard Strauss, Phillip Glass e Steve Reich. Vangloria-me por não conhecer nenhuma destas pessoas, pelo que, durante o concerto, não me incomodei pensando nelas. A obra de Eliane não pode ser comparada com nada e só isso já é único. São as suas impressões de toda a música que já ouviu na sua vida e que comprimiu na sua impressão sinfónica. Um fogo de artifício a rebentar em sons. E se estava a pensar nalguma coisa durante a escuta, foi em "Quadros de uma Exposição" de Mussorgsky, mas não me perguntem porquê. Simplesmente estava a pensar nisso. Passeava por uma exposição de emoções.

Hubert Couteau
Programador cultural KMDA